Raquel - Biografias

     Alfredo Roque Gameiro influenciou toda uma geração de novos talentos, estimulan­do o gosto pela aguarela e fomentando a sua prática. As duas filhas mais velhas, assim como aqueles que, mais tarde, lhe ficaram ligados por grau de parentesco - José Júlio Leitão de Barros e Jaime Martins Barata - seguindo o exemplo do mestre, expressaram-se plastica­mente através deste processo de pintura.
     Provavelmente devido às suas raízes aldeãs e pelo facto de ter passado os primeiros dez anos da sua vida num espaço rural, em Roque Gameiro persistiu um certo gosto atávico pelo viver simples, numa relação de proximidade e de convívio com a natureza, usufruindo dos benefícios que daí decorrem. Quando se mudou para a residência que mandara cons­truir na Venteira, em princípios do século XX, o pintor pôde, então, conciliar, mais intima­mente, essas suas tendências naturais e a necessidade de encontrar assuntos para pintar; ofereceu-se-lhe, assim, ensejo de percorrer a zona saloia e a orla marítima limítrofe.
     Excelente chefe de família, o artista educou os filhos com base em padrões sobre os quais orientou a sua vida, incentivando-os, essencialmente, a valorizar, por um trabalho assí­duo, as capacidades artísticas que lhes eram inatas. Talvez por isso, para eles, desenhar e pin­tar eram tarefas que se integravam no seu quotidiano, pois, desde crianças, sempre o fize­ram. Era usual pai e filhos saírem em grupo para o campo em sessões de trabalho, actividade que lhes permitia captar o motivo ou o espaço seleccionado, a partir de uma observação directa. Este tipo de existência algo patriarcal manteve-se durante largos anos, e os princí­pios inculcados nos filhos, desde a mais tenra infância, perduraram e deram valiosos frutos.
     A filha mais velha de Roque Gameiro nasceu em Lisboa, ainda antes da mudança da família para o vasto espaço da Casa da Venteira. Em 1911, casou com Jorge Ottolini; do en­lace nasceram três filhas e um filho. De início, o casal ficou a viver na Amadora, mudando-se, mais tarde, para a zona de Benfica, em Lisboa.
     Estimulada por uma educação que visava uma emancipação pessoal, Raquel come­çou a trabalhar muito cedo; tinha aproximadamente dezasseis anos quando se iniciou, pro­fissionalmente, na ilustração.
     Dotada de sólido talento, ganhou verdadeira autonomia artística e criou um estilo muito próprio, de sugestiva linguagem estética na representação das formas. É, na realidade, inconfundível o traço de Raquel, sinuoso, delicado, elegante, mas preciso e firme; as suas figuras, particularmente as femininas, possuem expressivas fisionomias e esbeltas formas corporais. As suas personagens adquirem tridimensionalidade mesmo quando a artista as delineia somente através de uma linha de contorno.
     O jornalista do Diário de Notícias que procedeu à crítica dos quadros apresentados na exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em 1915, refere essa especificidade do estilo da jovem artista: “Dona Raquel Gameiro Ottolini, emancipando-se da feição artística de seu pai e mestre, distingue-se em todos os seus trabalhosˮ.1
     Aplicada discípula de seu pai e assimilando, com êxito, os ensinamentos que ele lhe transmitiu, Raquel revelou-se, paralelamente, uma excelente aguarelista. Ela alia, significa­tivamente, a percepção dos motivos seleccionados a um conhecimento profundo desta técnica, resultando, desse dualismo, trabalhos de notável plasticidade. Todavia, nem sempre mantém as mesmas estratégias de pintura na transposição da figura humana para a obra de arte e na resolução dos ambientes em que ela se insere: em certas imagens revela-se, prio­ritariamente, a ilustradora e o desenho torna-se dominante, apresentando-se bem visível o traço que demarca cada elemento; neste contexto, a pintura serviu, apenas, para enfatizar os componentes do quadro. Acontece que ela utiliza esse procedimento quando pretende dar maior relevância a certas figuras da composição, destacando-as, conjuntamente, através de um cromatismo mais acentuado; tudo o que fica para lá dessas personagens torna-se flui­do e impreciso. Porém, em muitas das suas aguarelas a modelação das formas é, apenas, obtida por contraste cromático, desenhando a artista por meio do pincel e das tintas.
     No domínio da ilustração, Raquel desenvolveu intensa actividade. Também nesta área se manifesta o seu virtuosismo, na concepção e execução das imagens que criou, de suges­tiva graciosidade. Ela é uma contadora de histórias nata, e o seu lápis e o seu pincel têm, por assim dizer, uma vertente de significativa eloquência visual. Foram inumeráveis as obras em cuja ilustração participou, nomeadamente em livros infantis, alguns da autoria de Ana de Castro Osório e de Emília de Souza Costa. As suas ilustrações estendem-se a vários números especiais dos jornais Diário de Notícias, O Século, Comércio do Porto, e das revistas Serões e Eva. São célebres as imagens que criou para o Livro de bébé, trabalho de requintado desenho nas quais se revela a criatividade da artista. Em 1916, participou em A Phonetic Method, English Book, de J. Alves de Oliveira.
     Conjuntamente com o pai, Raquel executou várias caricaturas de personalidades da Amadora, do que resultou uma colecção de desenhos com forte sentido humorístico.
     Apesar de a sua obra comportar uma grande variedade temática, Raquel pintou, com uma certa insistência, inúmeras composições alusivas aos tipos e costumes saloios, possivel­mente influenciada pelo que observava à sua volta; ela completa essa sua visão das vivências rústicas com várias descrições de interiores. É bem conhecida a aguarela intitulada Interior, descrevendo uma cozinha saloia. Esta aguarela foi reproduzida na revista Vida Artística, em Novembro de 1911. Todos os elementos dessa composição se harmonizam, dando a artista particular relevo à camponesa que alimenta uma criança que tem ao colo.
     Tomou, assiduamente, como modelos, figuras de pescadores e de camponeses nas suas fainas diárias, tipos humanos observados numa perspectiva bem realista; frequentemente estes revelam nas suas feições rudes, acentuadas marcas de sofrimento, de desilusão ou de ansiedade. Nesses contextos, a pintora seleccionou uma gama de tintas de coloração mais intensa com o objectivo de sublinhar com maior intensidade as emoções patenteadas nos rostos.
     Raquel participou pela primeira vez, em 1909, nas exposições promovidas pela So­ciedade Nacional de Belas-Artes, tendo-se, igualmente, verificado uma razoável partici­pação nos anos subsequentes; apresentou também algumas obras em Salões de Inverno. Em 1911, quando o pai inaugurou o seu atelier na rua de D. Pedro V, a jovem artista expôs nesse espaço um elevado número de aguarelas. A imprensa da época noticia essa abertura em tom encomiástico, aludindo à excelente qualidade dos trabalhos apresentados.
     Em 1923 participou na exposição colectiva de aguarelistas portugueses, em Madrid, conjuntamente com o pai, Alfredo Roque Gameiro, a irmã Helena, João Alves de Sá, Leitão de Barros e Jaime Martins Barata, entre outros.
     Raquel manteve, até ao fim da vida, uma actividade verdadeiramente infatigável, pois, além do seu trabalho como ilustradora e pintora, ainda exercia funções docentes, em­bora a nível privado. Manteve grupos de alunos que pretendiam beneficiar dos seus ensi­namentos, primeiro no atelier da rua D. Pedro V e, posteriormente, na sua casa de Benfica.
     Raquel Roque Gameiro foi senhora de um carácter firme e decidido, agindo por vezes com uma certa frieza. Curiosamente, o retrato em que o pai a reproduz, em 1904, tinha ela apenas quinze anos, revela já na expressão fisionómica, e sobretudo no olhar, a de­terminação que a acompanhou pela vida fora.
1 Diário de Notícias, 22 de Dezembro de 1915
Maria Lucília Abreu
in A Aguarela na Arte Portuguesa, ACD Editores, 2008

 

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    1889 - Nasce em Lisboa.
    1903 - Ilustra a obra de Ana de Castro Osório, Contos para Crianças.
    1909 - Participa pela primeira vez nos salões anuais da Sociedade Nacional de Belas Artes, onde obtém uma menção honrosa. Nas duas décadas seguintes, continua a expor na SNBA, trabalhos em aguarela e desenho, sendo-lhe conferidos vários prémios.
    1911 - Casou com Jorge Ottolini.
    1923 - Participa na exposição de aguarelistas portugueses que se realiza em Madrid.  (Ver Notícias)
    1925 - Obtém o primeiro e segundo prémio num concurso promovido pela Imprensa Nacional para o desenho do ex-libris desta empresa.
    1929/30 - Obtém a medalha de honra na Sociedade Nacional de Belas Artes. Ao longo da sua vida ilustra numerosas obras e colabora em várias publicações periódicas, nomeadamente números especiais do Diário de Notícias, O Século e O Comércio do Porto e ainda nas revistas Os Serões e Eva. Entre os seus trabalhos mais conhecidos conta-se o Livro de bébé. Ilustra também o primeiro Livro Único editado pelo Ministério da Educação Nacional.
    1970 - Vem a falecer a 3 de Outubro.

in  A Casa Roque Gameiro, na Amadora

 

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     Nasceu em 1889.
     Aos 14 anos ilustrou os «Contos para Crianças» escritos por Ana de Castro Osório.
     Expôs pela primeira vez na Sociedade Nacional de Belas-Artes, ganhando, em 1909, uma Menção Honrosa, e, depois doutros prémios, a Medalha de Honra, em 1930.
     Fez uma exposição das suas obras em Londres com o patrocínio do embaixador Dr. Ruy Ulrich em 1935, tendo na mesma data a honra de ser convidada a expor na Society of Women Artists.
     Concorreu à Exposição de Artistas Portugueses organizada pelo Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, em 1945.
     Concorreu ao Salão Internacional de Aguarela Hispano-Português em Madrid, 1945.  (Ver Notícias)
     Em concurso aberto pela Imprensa Nacional para desenho do Ex-libris daquela Imprensa, em 1925, ganhou o primeiro e segundo prémios.
     Ilustrou livros de grandes nomes da literatura portuguesa, e foram suas também as ilustrações do primeiro «Livro Único» editado pelo Ministério da Educação Nacional.
     Autora do primeiro «
Livro de bébé», que conta já cinco edições, colaborou em números especiais do «Diário de Notícias», «0 Século», «0 Comércio do Porto», e em «Os Serões», «Eva» e muitas outras publicações periódicas.
     Faleceu em 3 de Outubro de 1970.
in Publicação do Museu Roque Gameiro

 

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    Aguarelista contemporânea, filha e discípula de Alfredo Roque Gameiro. Comprazia-se em representar, em tintas vivas e cantantes, figuras de pescadores e camponeses, surpreendidos na sua faina diária, e sobretudo tipos e costumes de saloios dos arredores de Lisboa, em cujos traços se vinca a sua ascendência moira. Também representava de maneira saborosa interiores rústicos, pobres mas airosos, com chitas de ramagens e loiças toscas de barro vidrado. Muito decorativas as suas composições de flores, de tonalidades fortes e álacres. Há nas aguarelas de Raquel Gameiro largo sentido ilustrativo.
    Estamos, demais, perante uma ilustradora talentosa, que sabia imprimir a este género de arte muita vivacidade e graça. Obteve a 1.a medalha em aguarela na Sociedade Nacional de Belas-Artes em 1929 e alcançou depois a medalha de honra. Está representada no Museu Nacional de Arte Contemporânea com algumas aguarelas, e bem assim no seu congénere de Madrid.
    Outras obras: Col. João Félix da Silva Capucho, Prof. Doutor Fernando da Fonseca, D. Maria do Natal Mina, Major F. Supico, Henrique Adler, etc.
Bibliografia: Fernando de Pamplona— «Um Século de Pintura e Escultura em Portugal».
Fernando de Pamplona:
in  DICIONÁRIO DE PINTORES E ESCULTORES
Portugueses ou que trabalharam em Portugal, Vol. IV
2ª Edição (actualizada) - Livraria Civilização Editora

 

Ver:
Um Século de Pintura e Escultura em Portugal, de Fernando de Pamplona (1943)